Alla prima, 2019

“Alla prima” vem de uma inquietude também perante o silêncio e imobilidade das imagens. O corpo humano, essa espécie de unidade fundamental da produção de imagens no Ocidente, é tanto o enfoque de sua pesquisa enquanto colecionador de imagens, como o instrumento através do qual o próprio corpo do intérprete se colocará perante o público. O seu olhar diz respeito à construção e invenção do Brasil – quais seriam os movimentos e vozes do grande número de imagens que em mais de cinco séculos foram capazes de criar certas ideias sobre o que seria o Brasil, os brasileiros e a brasilidade?



Criação e interpretação: Tiago Cadete Consultor história da arte: Raphael Fonseca Figurinos: Carlota Lagido Assistente de projeto: Bernardo Almeida
Colaboradores Voz-off: Priscila Maia; Raphael Fonseca, Raquel André; Sueli do Sacramento; Jonas Arrabal; Victor Dias; Laura Arbex; Felipe Abdala; Isabel Martins; Júlia Arbex; Breno de Faria; Daniela Seixas; Leandra Espirito Santo. Fotografia de documentação: Victor Dias Fotografia de cena: José Carlos Duarte Assessoria de imprensa: Mafalda Simões
Residência: Centro Coreográfico do Rio de Janeiro Apoio: Eira; Perfeitura do Rio de Janeiro
Acolhimentos: Escola de Mulheres; ZDB | NEGÓCIO; Mala Voadora/PORTO Co-produção: TEMPS D’IMAGES ‘15

19_dez’ 2015_ Escola de Mulheres/ Lisboa [PT]
27_28_29_30 jan'2016_ZDB_Negócio/Lisboa [PT]
05_06 mar’ 2016_Mala voadora/Porto [PT]
27_30 Jul’ 2016_Rua das Gaivotas 6 [PT]
3 Ago´2016_Festival Citemor [PT]
15_16 Set 2017 Bienal Dança Sesc [BR]

10-18 nov 2018 Museu do Ipiranga [BR]
06 jun 2019 Portuguese Platform for Performing Arts PT19 - Montemor-o-novo [PT]




Há uma anedota a respeito da obra de Michelangelo que parece oportuna para se iniciar esse texto. Em torno de 1515, ao finalizar o Moisés para o túmulo de Júlio II, em Roma, o artista teria dado uma martelada no joelho de sua escultura e incitado o homem marmóreo de olhar compenetrado e barbas longas a falar. Em outras palavras, sua escultura teria ficado tão realista que apenas faltaria a voz para que migrasse da representação do corpo humano para a aparição de um ente vivo. Michelangelo provocava de modo irônico a máxima dita por Horácio e Plutarco de que “a poesia é imagem que fala e a pintura é poesia muda”.

O que Tiago Cadete propõe com “Alla prima” vem de uma inquietude também perante o silêncio e imobilidade das imagens. O corpo humano, essa espécie de unidade fundamental da produção de imagens no Ocidente, é tanto o enfoque de sua pesquisa enquanto colecionador de imagens, como o instrumento através do qual o próprio corpo do intérprete se colocará perante o público. O seu olhar diz respeito à construção e invenção do Brasil – quais seriam os movimentos e vozes do grande número de imagens que em mais de cinco séculos foram capazes de criar certas ideias sobre o que seria o Brasil, os brasileiros e a brasilidade?

O termo “alla prima”, dentro da prática de pintura, diz respeito a uma técnica em que o artista enfrenta a tela diretamente, aplicando camadas de tinta sem esperar um tempo de secagem, causando uma espécie de sobreposição tanto de cores, quanto de imagens. De modo dialógico, o corpo do artista aqui responde diretamente a uma série de descrições sobre o que poderiam ser estes “corpos brasileiros”. Para além da narrativa histórica eurocêntrica que criou a teoria das três raças no Brasil – onde as populações africanas, europeias e indígenas seriam ingredientes deste caldeirão cultural –, sua anatomia se transforma num receptáculo de múltiplos criadores, culturas, etnias e proposições plásticas.

Através desta reencenação que se dá de modo transhistórico entre a visualidade e diferentes descrições orais/verbais, o corpo de Tiago Cadete acaba por desenhar uma nova coreografia deveras distante do samba e da alegria tropical comumente atribuída ao que poderia ser a “cultura brasileira”. De repente os trópicos ficam tristes e algumas das tentativas de colonização do Brasil a partir da imagem vem à tona.

Faz-se importante, então, sentir na pele o incômodo dessas poses e constatar que, mais do que uma geografia, o Brasil é um conceito constituído a partir de um corpo fictício que alinhava pedaços esquartejados de muitas vidas silenciadas pelo tempo.

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Raphael Fonseca